Dia de aniversário, sentado no chão com as
costas apoiadas num pilar. Está frio, sendo os valores de referência aqueles
que se têm neste meu país que amo. Ao fundo, entre sons de aves, motores de automóvel,
conversas aleatórias que nada mais fazem do que isso, barulho. Mais alto ainda,
mas que ninguém ouve, estão os mil pensamentos que teimam em andar em redor de sítio
algum. Já eu, antagonicamente estou num local que sei bem qual é, que já tanto
ouvia falar mas apenas hoje lhe dei uma imagem real, colocada física e geograficamente.
Falo do Hospital Dona Estefânia.
Diariamente trabalho com crianças, muitas
vão daqui para lá por situações menos felizes, mas muitas vezes ou, pelo menos
mais vezes do que gostariam, muitas são enviadas também para cá quando o estado
assim o dita, por necessidade de cuidados intensivos. Isto tudo para dizer que
este não é o dia de aniversário ideal para ninguém, quando pretendemos que o
nosso dia seja memorável expectamos que seja por motivos bons.
Hoje não. Hoje estou aqui porque, por ser
enfermeiro não estou imune a problemas de saúde. Nem eu, nem os que me são
próximos. Eu que encaro, sempre que me é possível, o dia-a-dia, no trabalho,
com um sorriso na cara, um carinho no toque e nas palavras e um abraço sempre
preparado para quem pedir e premir esse gatilho no Ser Humano que teimo em ser,
hoje estou a viver tudo do outro lado. O lado de quem é cuidado, de familiar.
Não tem sido um percurso de hoje, nem de
ontem. Tem semanas e muito me tem ensinado. Aprendi que frases que dizemos no
dia-a-dia com a melhor das intenções, não nos soam igual quando em vez de
proferidas, são ouvidas. Quando a calma não se consegue só porque é
aconselhada. Têm sido semanas de uma luta intensa, que bem como guerreiros de
qualquer civilização antiga, dura dias inteiros – luta entre o Enfermeiro que
sou e o familiar que não posso nunca deixar de ser. Momentos ganha o Mário
familiar e tudo se complica mas tento que, sempre que possa, prevaleça o Mário
enfermeiro, que tem a calma e a palavra que é precisa e esclarecedora para
quem, ainda mais em pânico sente na pele o medo e as intervenções perante
alterações na sua saúde.
Muito tenho aprendido com isto, muitas
lições são ensinadas e os pensamentos que voam em redor de sitio nenhum trazem
noções que não tinha. É estranho andar em corredores de hospital sem que seja
com uma farda colocada, um cartão que abre portas e caras conhecidas, com
sentido de onde se vai, de onde se vem e onde queremos ir. O poder que temos no
dia-a-dia e não sabemos e notamos existe e só agora denoto isso. Somos
referências para quem cuidamos e só agora percebo. Dá-me mais força e atenção
para valorizar, ainda mais, as pessoas com quem cruzo, que cuido e os pequenos
seres e suas famílias com quem tenho a honra de lidar e me cruzar todos os
dias.
Não me irei estender mais, mas quero e
preciso expressar que hoje, como presente, só peço que tudo corra bem naquela
sala de cirurgia, que a recuperação seja a melhor e que muito em breve me seja
permitido encontrar-te de novo saudável, ou pelo menos sem males maiores. De
resto, para mim mesmo, que tudo isto seja uma lição apreendida e não me esqueça
do que sou e principalmente para quem sou. Que a minha caixa pessoal de
sorrisos, abraços, respeito, palavras, amor e carinho seja sujeita a um aumento
significativo e que possam ser, cada vez mais, distribuídos de coração.
Carta para ti próprio, aniversariante ;)

Parabéns!!!!! ( atrasados)
ResponderEliminarQue a vida lhe de de prenda ...tudo o que de bom desejar, para si e para os "seus"!
Muito obrigado, assim o desejo tambem ;)
ResponderEliminarIgualmente para si, tudo de bom!
Como o entendo, nao por ser enfermeira (que nao o sou) mas sinto me como tal, pois durante 13anos fui cuidadora da minha avozinha.
ResponderEliminarPena nao existir um "curso" para todos que sao enfermeiros, pois nem todos sentem aquilo que o Enfº Mario sentiu. Muitos nao pensam que hoje somos nos que necessitamos de ouvir uma palavra amiga, de alento apesar de muitas vezes sabermos que o fim esta perto, um carinho, um toque.
Que bem me fez ler o seu texto. Espero que nao acabe com o blogue. Sigo no facebook a historia do Joaozinho, pois é aluno de um colega meu ca da minha terra.
Obrigada Enfº Mario por me fazer sentir que nem sempre as pessoas estao "entregues á bicharada".
<3 tudo de bom para si :)