sábado, 11 de março de 2017

Carta para ti próprio, para que não te esqueças!

Dia de aniversário, sentado no chão com as costas apoiadas num pilar. Está frio, sendo os valores de referência aqueles que se têm neste meu país que amo. Ao fundo, entre sons de aves, motores de automóvel, conversas aleatórias que nada mais fazem do que isso, barulho. Mais alto ainda, mas que ninguém ouve, estão os mil pensamentos que teimam em andar em redor de sítio algum. Já eu, antagonicamente estou num local que sei bem qual é, que já tanto ouvia falar mas apenas hoje lhe dei uma imagem real, colocada física e geograficamente. Falo do Hospital Dona Estefânia.

Diariamente trabalho com crianças, muitas vão daqui para lá por situações menos felizes, mas muitas vezes ou, pelo menos mais vezes do que gostariam, muitas são enviadas também para cá quando o estado assim o dita, por necessidade de cuidados intensivos. Isto tudo para dizer que este não é o dia de aniversário ideal para ninguém, quando pretendemos que o nosso dia seja memorável expectamos que seja por motivos bons.

Hoje não. Hoje estou aqui porque, por ser enfermeiro não estou imune a problemas de saúde. Nem eu, nem os que me são próximos. Eu que encaro, sempre que me é possível, o dia-a-dia, no trabalho, com um sorriso na cara, um carinho no toque e nas palavras e um abraço sempre preparado para quem pedir e premir esse gatilho no Ser Humano que teimo em ser, hoje estou a viver tudo do outro lado. O lado de quem é cuidado, de familiar.

Não tem sido um percurso de hoje, nem de ontem. Tem semanas e muito me tem ensinado. Aprendi que frases que dizemos no dia-a-dia com a melhor das intenções, não nos soam igual quando em vez de proferidas, são ouvidas. Quando a calma não se consegue só porque é aconselhada. Têm sido semanas de uma luta intensa, que bem como guerreiros de qualquer civilização antiga, dura dias inteiros – luta entre o Enfermeiro que sou e o familiar que não posso nunca deixar de ser. Momentos ganha o Mário familiar e tudo se complica mas tento que, sempre que possa, prevaleça o Mário enfermeiro, que tem a calma e a palavra que é precisa e esclarecedora para quem, ainda mais em pânico sente na pele o medo e as intervenções perante alterações na sua saúde.

Muito tenho aprendido com isto, muitas lições são ensinadas e os pensamentos que voam em redor de sitio nenhum trazem noções que não tinha. É estranho andar em corredores de hospital sem que seja com uma farda colocada, um cartão que abre portas e caras conhecidas, com sentido de onde se vai, de onde se vem e onde queremos ir. O poder que temos no dia-a-dia e não sabemos e notamos existe e só agora denoto isso. Somos referências para quem cuidamos e só agora percebo. Dá-me mais força e atenção para valorizar, ainda mais, as pessoas com quem cruzo, que cuido e os pequenos seres e suas famílias com quem tenho a honra de lidar e me cruzar todos os dias.

Não me irei estender mais, mas quero e preciso expressar que hoje, como presente, só peço que tudo corra bem naquela sala de cirurgia, que a recuperação seja a melhor e que muito em breve me seja permitido encontrar-te de novo saudável, ou pelo menos sem males maiores. De resto, para mim mesmo, que tudo isto seja uma lição apreendida e não me esqueça do que sou e principalmente para quem sou. Que a minha caixa pessoal de sorrisos, abraços, respeito, palavras, amor e carinho seja sujeita a um aumento significativo e que possam ser, cada vez mais, distribuídos de coração.

Carta para ti próprio, aniversariante ;)


3 comentários:

  1. Parabéns!!!!! ( atrasados)
    Que a vida lhe de de prenda ...tudo o que de bom desejar, para si e para os "seus"!

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  2. Muito obrigado, assim o desejo tambem ;)
    Igualmente para si, tudo de bom!

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  3. Como o entendo, nao por ser enfermeira (que nao o sou) mas sinto me como tal, pois durante 13anos fui cuidadora da minha avozinha.
    Pena nao existir um "curso" para todos que sao enfermeiros, pois nem todos sentem aquilo que o Enfº Mario sentiu. Muitos nao pensam que hoje somos nos que necessitamos de ouvir uma palavra amiga, de alento apesar de muitas vezes sabermos que o fim esta perto, um carinho, um toque.
    Que bem me fez ler o seu texto. Espero que nao acabe com o blogue. Sigo no facebook a historia do Joaozinho, pois é aluno de um colega meu ca da minha terra.
    Obrigada Enfº Mario por me fazer sentir que nem sempre as pessoas estao "entregues á bicharada".
    <3 tudo de bom para si :)

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